
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmou, durante audiência de custódia realizada na tarde deste domingo (23/11), que danificou sua tornozeleira eletrônica após sofrer uma “certa paranoia”. Segundo ele, o episódio teria sido provocado por uma interação medicamentosa inadequada entre dois remédios que usa: pregabalina e sertralina.
Bolsonaro foi preso por suposta tentativa de fuga e dano ao equipamento de monitoramento. Em seu relato, disse ter passado a madrugada anterior com “sono picado” e, em determinado momento, acreditado que havia uma escuta instalada no aparelho. Tomado pela alucinação, tentou abrir a tornozeleira com um ferro de solda. Ainda segundo o ex-presidente, ao “cair na razão”, interrompeu a ação e comunicou o ocorrido às autoridades responsáveis pelo monitoramento.
Especialistas contestam justificativa
A explicação apresentada por Bolsonaro, no entanto, não encontra sustentação entre especialistas ouvidos pelo Metrópoles. A combinação entre pregabalina — um anticonvulsivante também indicado para dores neuropáticas e ansiedade — e sertralina — antidepressivo amplamente usado para depressão e transtornos ansiosos — não costuma provocar surtos ou alucinações.
Walleri Reis, farmacêutica do Conselho Federal de Farmácia, afirma que a associação entre os dois medicamentos é, em geral, segura e “não costuma estar ligada a riscos significativos”. Reações adversas importantes são consideradas incomuns.
Embora a sertralina possa, em alguns pacientes, reduzir o nível de sódio no sangue (hiponatremia) ou, raramente, provocar convulsões — especialmente quando usada em conjunto com anticonvulsivantes — tais efeitos não incluem episódios de delírios ou alucinações como os relatados pelo ex-presidente.
A professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) reforça que apenas uma avaliação clínica completa poderia confirmar se o que Bolsonaro descreveu teve, de fato, origem medicamentosa. “Reitera-se que, por se tratar de reação adversa rara e incomum, apenas uma avaliação de saúde multiprofissional individualizada, excluindo outras possíveis causas orgânicas ou mentais, poderia comprovar se isso aconteceu ou não no caso do ex-presidente”, afirmou.
Próximos passos
Após o episódio, Bolsonaro segue à disposição da Justiça, que analisará as circunstâncias da violação da tornozeleira e a alegação de que o ato foi cometido sob um estado psicótico momentâneo. A investigação também deve considerar laudos médicos e eventuais avaliações psiquiátricas para esclarecer a versão apresentada pelo ex-presidente.





